Publicado em 06/03/2014
 
 


Bueno, da Casa de Apoio Belém: burocracia na liberação
de recursos não pode prejudicar tratamento de dependentes

Com menos dinheiro em 2014, a Prefeitura de Curitiba quer avançar no combate e tratamento do uso de drogas. A Secretaria Municipal da Defesa Social pretende lançar, a partir de março, um conjunto de ações para ampliar a rede de atendimento nas comunidades terapêuticas, executar o programa Mães contra o Crack e ofertar serviços básicos de saúde e cultura para as pessoas em condição mais vulnerável, em unidades móveis. Apesar de o orçamento previsto para a política antidrogas ter sofrido corte de quase 50%, a pasta pretende atingir os objetivos com a ajuda do governo federal e de uma rede formada pela sociedade civil organizada e líderes comunitários.

 

Os recursos previstos para a Secretaria Municipal Antidrogas em 2013 totalizavam R$ 7,3 milhões, mas nem foram executados integralmente. O orçamento havia sido feito pela gestão anterior, e, quando Gustavo Fruet assumiu, no ano passado, ele fundiu a Secretaria Antidrogas com a Defesa Social. Para 2014, o orçamento municipal prevê R$ 3,8 milhões para a política antidrogas.

Segundo o diretor do departamento de política sobre drogas da prefeitura, Diogo Busse, ele defendia a redução da estrutura desde 2012, quando presidiu a Comissão de Direito e Dependência Química da OAB-PR. “Dizia que era possível reduzir o quadro, mas qualificá-lo, e é o que estamos procurando fazer. Temos parceria com a sociedade civil, entidades religiosas e o governo federal. Isso nos permite fazer um trabalho com mais alcance do que antes”, afirma.

A concepção da política contra as drogas também sofreu modificações, explica Busse. Anteriormente, diz ele, a secretaria tinha um caráter mais repressivo, e agora o foco é humanitário. Isso ficará mais visível em março, quando está previsto o lançamento de dois ônibus adaptados que vão circular pela cidade. Serão módulos móveis direcionados à população mais vulnerável, com espaço para higienização, consulta com agentes de saúde, psicólogos e psiquiatras. “É o primeiro passo para a inclusão dessa população. Não haverá nenhuma precondição de abstinência. Mas a ideia é gerar um vínculo, sensibilizá-los para um tratamento em fase posterior.”

A professora de Farmacologia da UFPR Roseli Boerngen de Lacerda explica que esse tipo de ação é positiva, pois permite que o poder público conquiste a confiança dos drogados. “Isso tem evidência científica. É preciso ir até o viciado, não dá para ficar dentro de uma casinha esperando que ele vá se tratar.”

A professora alerta para o risco dos governantes deixarem de lado avanços conquistados por adversários políticos. “Por sorte, em Curitiba, temos evoluído constantemente nessa área, e há boas perspectivas.”

Outro projeto em vista é o Mães contra o Crack, para o qual a Prefeitura de Curitiba havia conquistado, ainda em 2012, R$ 1,5 milhão do Ministério da Justiça. Porém, o programa não chegou a ser executado na cidade.

Estudantes do 9.º ano do ensino fundamental de Curitiba estão entre os que mais consumiram drogas ilícitas alguma vez na vida. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), divulgada pelo IBGE no ano passado, 14,4% dos alunos da cidade já experimentaram drogas como maconha, cocaína, crack, cola, loló, lança perfume e ecstasy. O porcentual é o segundo maior do Brasil, atrás apenas de Florianópolis (17,5%). Na média das capitais, o valor é de 9,9%. A pesquisa foi amostral, com 2,1 mil estudantes em Curitiba e 109,1 mil em todo o Brasil.

Para reverter essa situação, a Prefeitura de Curitiba informa que investe em ações de prevenção nas escolas, especialmente na rede pública. “Embora a gente procure não trabalhar com estigmas, há uma prevalência de consumo no ensino público, em comunidades periféricas e no público jovem”, explica Diogo Busse, do Departamento de Política sobre Drogas. “O principal gargalo é a questão da linguagem, como disseminar conteúdo educativo e preventivo. A cultura do medo não atinge os jovens”, relata.

Famílias

A administração municipal também tem investido em palestras com líderes comunitários e agentes públicos, como guardas civis e servidores das administrações regionais. Entre julho e dezembro, foram capacitadas 600 pessoas, segundo Busse. Um convênio com o governo federal, que deve ser implantado a partir de março, pretende criar equipes multidisciplinares para orientação direta nas comunidades. A meta é atingir 8 mil famílias.